The
Religious Consultation on Population, Reproductive Health & Ethics Jornal
do Brazil Segunda-feira, 26 de Novembro de 2001
Um teólogo na contramão da Igreja Americano defende
uso de contraceptivos, união entre gays, masturbação e aborto
RODRIGO ALVES, Carlo Wrede Quem vê aquele senhor
sorridente apreciando a piscina do hotel e ansioso para dar uma volta na praia
de Copacabana não imagina que se trata de um respeitado teólogo
católico, estudioso incansável da religião. Na verdade, a
ala conservadora da Igreja até gostaria que ele fosse apenas mais um velhinho
aposentado. Mas, aos 70 anos, Daniel Maguire está longe disso. Firme em
sua posição progressista, ele leciona na Universidade de Marquette,
em Milwaukee (EUA), e está no Brasil para fazer palestras e divulgar um
ambicioso projeto: revelar o que pensam as mais importantes religiões do
planeta sobre aborto e contraceptivos, temas que sempre causaram alergia ao Vaticano.
O grupo comandado por Maguire tem acadêmicos de vários países
- a maioria mulheres. O primeiro fruto já chegou às livrarias americanas.
Sacred choices (Escolhas sagradas) analisa dez religiões e derruba a idéia
de que boa parte delas é radicalmente contra o aborto. ''Todas são
muito ricas, a ponto de fornecer várias interpretações legítimas'',
esclarece o teólogo. ''Não há certo ou errado, o que existe
é uma variedade de visões'', completa. Imagem errada - O
objetivo é mostrar que muitos fiéis conservam uma imagem equivocada
de sua própria crença. ''Dando aula para católicos, noto
que eles não conhecem o amplo espaço de interpretação
dado pela Igreja'', conta o professor, ciente de que está lidando com um
tema complicado. ''O instinto nos leva a optar pela vida e todo aborto tem uma
carga de tristeza, mas ele pode ser algo negativo com uma conotação
pró-vida.'' Maguire acha inevitável que a discussão
resvale para a complicada relação entre homem e mulher, e aponta
o ranço patriarcal das religiões como principal problema. ''Todas
são assim, as grandes figuras são homens e os cargos de autoridade
sempre estão ocupados por eles'', atesta, dando como exemplo uma conversa
bem-humorada que teve com uma budista. ''Ela me perguntou o que uma mulher poderia
esperar de uma religião cujo fundador abandonou esposa e filhos em busca
da iluminação. Onde estava ele para cuidar das crianças?'',
brinca. O reflexo fica evidente quando vem à tona a questão
do direito de abortar. ''A mulher precisa ser algo mais que uma produtora de bebês
a serviço de um homem'', protesta Maguire, alegando que uma pessoa não
pode ser inteiramente livre se não tiver controle sobre sua reprodução.
O teólogo vê na mulher uma habilidade muito maior para tomar conta
da vida. ''É o homem que mata'', diz. ''Nos atentados de 11 de setembro,
ninguém pensou: quem terá sido a mulher que jogou o avião
no World Trade Center?. São os homens que cometem esses atos contra a vida'',
exemplifica. Educação - Mas como mudar o pensamento machista
que sempre dominou as religiões e a sociedade? Para Maguire, a solução
está na educação sexual. No entanto, pelo menos perto de
casa, ele não tem gostado do que vê. ''Os americanos não investem
neste campo, há adolescentes que ainda acreditam ser impossível
engravidar na primeira relação'', surpreende-se. O motivo apontado
pelo teólogo para tanto descaso é a idéia distorcida de que
falar de sexo com os jovens só vai estimulá-los a praticar cada
vez mais. Tal ''epidemia'' seria o caos para as religiões que só
aceitam o sexo para fins de reprodução. Neste ponto, Maguire não
hesita em apontar suas armas para uma das mais importantes figuras do cristianismo,
Santo Agostinho. ''Era um neurótico, dizia que todo bebê nasce manchado
pela impureza do ato que o gerou, daí a necessidade do batismo. Se isso
não é indicação de neurose sexual...'', provoca. Além
dos baixos investimentos em educação, a posição do
governo americano em relação ao aborto também não
agrada a Daniel Maguire. Segundo ele, hoje só os ricos são beneficiados,
mesmo nas regiões em que a prática é legalizada. ''O país
falhou na missão de separar a Igreja do Estado'', decreta o professor.
''Hoje estão preocupados com o terrorismo, mas sempre houve terror contra
as mulheres nas clínicas de aborto e ninguém dizia nada'', lamenta.
Tabus - O teólogo esteve em São Paulo na semana passada,
participando de um congresso promovido pela Federação Internacional
de Ginecologia e Obstetrícia (Figo). Defendeu temas polêmicos como
métodos contraceptivos, masturbação e união entre
homossexuais. Hoje à noite, ele se reúne com representantes de ONGs
e estudiosos de planejamento familiar no Iser. Só lamenta não poder
ficar no Rio para o encontro que celebra o Dia da luta pela descriminalização
do aborto na América Latina e no Caribe, de 2 a 5 de dezembro. Pela
primeira vez no Brasil, Maguire ficou espantando com a desigualdade social. ''Estou
aterrorizado, me pediram para não andar com jóias, não fazer
compras sozinho, me senti um prisioneiro no hotel'', conta. Apesar disso, jura
que adorou a cidade, tanto que já tomou partido na saudável rivalidade
com os paulistas: ''Não acharia o Brasil tão bonito se tivesse ido
apenas a São Paulo, mas felizmente vim ao Rio e mudei minhas impressões'',
revelou, antes de se arrumar para finalmente passear no calçadão
de Copacabana. Sem relógio, claro. A
doutrina moderada católica sobre a contracepção e o aborto
Home |